30 Novembro 2009
11 Novembro 2009
A CAIXINHA
O ritual se repetia quase todos os dias. Ele chegava em casa, ia direto para o quarto e fechava a porta. Da pequena fresta da janela dava para ver que ele abria o guarda roupa e retirava de lá uma caixinha de madeira. Era uma caixa comum, retangular. Na frente da caixa ficava dependurado um pequeno cadeado prendendo a tampa. Colocava-a sobre a cama, sentava na borda e cerimoniosamente pegava a chave e abria-a. Às vezes tirava de lá algum papel ou depositava ali alguns trocados. Tinha ciúme inexplicável daquele objeto de madeira. Caiu doente. Abandonou a caixa dentro do guarda roupa. Agonizou por muito tempo até falecer. Após o sepultamento, os parentes se reuniram, precisavam ver o conteúdo misterioso da caixa. Ninguém achou a chave. Alguém sugeriu desmontar pela dobradiça. Assim foi feito. Havia tensão no ar. Finalmente a tampa abriu-se. De dentro da pequena caixa foram sendo tirados sob os olhares curiosos muitos papéis velhos, sem nenhum sentido como recibos de salários, receitas médicas, bulas. Nenhuma carta de amante, nenhuma cédula de dinheiro, nenhum título de banco, nenhum seguro de vida. Nada que realmente valesse a pena. Aquela caixa era apenas um símbolo que ele tinha para imaginar que possuía alguma coisa.
02 Novembro 2009
27 Outubro 2009
SAUDADES DO JOAQUIM
Queria poder sentar novamente com o Joaquim. Ouvir suas histórias as vezes tristes, as vezes engraçadas. Ter paciência em aguardar que ele mastigasse lentamente o amendoim torrado, logo após um longo trago de cerveja. Enquanto mastigava seu olhar ia para longe, ficava pensativo, depois voltava ao mesmo lugar. Mais um longo gole na cerveja gelada, que descia com um prazer indescritível, deixando sinais de espuma nos lábios superiores. Outra história, muitas risadas. O tempo passou, o Joaquim se foi deixando um rastro de coisas boas e ruins, como suas próprias histórias. Joaquim era meu pai.
19 Outubro 2009
TRÊS TEXTOS PARA REFLETIR
Segue abaixo três textos extraídos do Ensaio entitulado “ELOGIO DO MEDO” da psicanalista MARIA RITA KEHL, do livro “ENSAIOS SOBRE O MEDO”, organizado por ADAUTO NOVAES, Edições SESC, São Paulo, 2007, págs. 89, 102, 109 e 110.
TEXTO 1
O medo pode ser provocado pela percepção de nossa insignificância diante do universo, da fugacidade da vida, das vastas zonas sombrias do desconhecido. É um sentimento vital que nos protege dos riscos da morte. Mas em razão dele desenvolvemos o sentido da curiosidade e a disposição à coragem, que superam a mera função de defesa da sobrevivência, pois possibilitam a expansão das pulsões de vida.”
O medo pode ser provocado pela percepção de nossa insignificância diante do universo, da fugacidade da vida, das vastas zonas sombrias do desconhecido. É um sentimento vital que nos protege dos riscos da morte. Mas em razão dele desenvolvemos o sentido da curiosidade e a disposição à coragem, que superam a mera função de defesa da sobrevivência, pois possibilitam a expansão das pulsões de vida.”
TEXTO 2
“É interessante notar que, ao articular angústia e encontro com o vazio Freud inscreve-se marginalmente na tradição filosófica do cristianismo. Mas onde um pensador como Pascal refere-se ao vazio da alma sem Deus, que deixa o homem desamparado diante do universo e do seu destino, Freud trata do vazio de simbolização e do desamparo psíquico que ele acarreta. O sujeito da psicanálise é o homem sem Deus da modernidade, indefeso perante sua própria divisão subjetiva. Por um lado, encontra-se a mercê da invasão das excitações pulsionais; por outro, vive temeroso de deparar com as representações do desejo inconsciente. Nesse sentido, pode-se pensar nas fobias como mecanismos de proteção ante o medo de sentir medo, o qual não é outro senão o medo do inconsciente a que se referiu Freud na conclusão do `caso Hans*´” *Hans, um menino de 5 anos analisado indiretamente por Freud.
“É interessante notar que, ao articular angústia e encontro com o vazio Freud inscreve-se marginalmente na tradição filosófica do cristianismo. Mas onde um pensador como Pascal refere-se ao vazio da alma sem Deus, que deixa o homem desamparado diante do universo e do seu destino, Freud trata do vazio de simbolização e do desamparo psíquico que ele acarreta. O sujeito da psicanálise é o homem sem Deus da modernidade, indefeso perante sua própria divisão subjetiva. Por um lado, encontra-se a mercê da invasão das excitações pulsionais; por outro, vive temeroso de deparar com as representações do desejo inconsciente. Nesse sentido, pode-se pensar nas fobias como mecanismos de proteção ante o medo de sentir medo, o qual não é outro senão o medo do inconsciente a que se referiu Freud na conclusão do `caso Hans*´” *Hans, um menino de 5 anos analisado indiretamente por Freud.
TEXTO 3
Que significantes mestres regulam o gozo na sociedade atual? A potência paterna passou a ser medida pelo poder de consumo do pai real; fica excluída, assim, a possibilidade de um pai pobre fazer-se respeitar, mesmo nos casos em que este se apresente, à maneira antiga, como honesto, esforçado, trabalhador. Quanto aos que têm dinheiro, estes se vêem lançados em uma negociação permanente com os filhos, em termos de: se quiser que eu te obedeça, me pague.
A publicidade demonstra constantemente que a fruição individual de um objeto de consumo (apresentado como objeto do desejo) vale mais do que todos os ideais coletivos do mundo. Descolado de uma cadeia significante que sustente sua função simbólica, o pai contemporâneo sente-se, com frequência, incapaz de exercer a autoridade necessária, tanto para estruturar seus filhos por meio da imposição de limites quanto para protegê-los dos riscos da falta de limites.”
Que significantes mestres regulam o gozo na sociedade atual? A potência paterna passou a ser medida pelo poder de consumo do pai real; fica excluída, assim, a possibilidade de um pai pobre fazer-se respeitar, mesmo nos casos em que este se apresente, à maneira antiga, como honesto, esforçado, trabalhador. Quanto aos que têm dinheiro, estes se vêem lançados em uma negociação permanente com os filhos, em termos de: se quiser que eu te obedeça, me pague.
A publicidade demonstra constantemente que a fruição individual de um objeto de consumo (apresentado como objeto do desejo) vale mais do que todos os ideais coletivos do mundo. Descolado de uma cadeia significante que sustente sua função simbólica, o pai contemporâneo sente-se, com frequência, incapaz de exercer a autoridade necessária, tanto para estruturar seus filhos por meio da imposição de limites quanto para protegê-los dos riscos da falta de limites.”
18 Outubro 2009
NÃO BASTA SABER DANÇAR TEM QUE TER CORAGEM

No 8º Festival de Dança de Araraquara, como em todos os anos, há sempre uma novidade. Este ano a novidade ficou por conta de um grupo de São José do Rio Preto, que se apresentou dependurado por cordas no alto do prédio da Prefeitura, há mais de 30 metros de altura! Nas duas fotos dá para ter uma noção do perigo. Mas foi um espetáculo muito bonito que tirou o fôlego de todos que assistiam.10 Outubro 2009
O AR NAS CHÁCARAS DE ITATIBA

Passar um final de semana numa pequena chácara em Itatiba é muito bom. Se estiver acompanhado de bons amigos e principalmente do Valdizar e da sua companheira Sônia, é indescritível. A conversa rola solta até altas horas. Fala-se de tudo, política, meio ambiente, cinema, comida. Preparei um delicioso tepan de salmão com repolho ao forno, acompanhado de arroz branco e sakê de dar água na boca. O ruim é que a revoada dos pássaros na tarde de domingo insistiam em nos lembrar que tínhamos que pegar a estrada, afinal segunda-feira é dia de trabalho duro. O Valdizar é esse cidadão aí, cearense arretado, com uma história de vida fantástica.
VOCÊ PRECISA DISSO?
Passou pelos piores dias da sua vida. O câncer lhe causava dores insuportáveis. Foram meses de fisioterapia. Perdeu os cabelos, a auto estima, os amigos. Estava muito magro. É muito pobre, depende de médicos do serviço público, remédios do serviço público, de transporte público. Fez um último exame para ver seu atual estado de saúde depois de 1 ano de tratamento e uma cirurgia. Finalmente a boa notícia, estava curado. Saiu do hospital, foi até o ponto de ônibus sob um sol intenso. No ônibus, sentou-se à janela. Olhava as pessoas andando rápido. Crianças deliciando-se com sorvetes, levando bronca dos adultos que as acompanhavam. Sentiu novamente a vida. Fez o que há muito tempo não fazia: sorriu. Começou a sentir um forte desejo interno de viver, de se emocionar, de abraçar pessoas novamente. De dizer alto e em bom som: Estou curado! Ao seu lado senta uma mocinha e à frente sua amiga. Ambas aparentando 17 ou 18 anos. A amiga vira-se e começa comentar como está se sentindo. Está deprimida, problemas em casa, escola, namorado... E essa conversa com lamentos das duas foi se alongando. O rapaz olhou para ambas e disse: Sabe o que eu acho? Que vocês duas estão precisando passar por um câncer, quem sabe se a depressão, namorado, família, etc, fique para outro plano e vocês comessem a dar mais valor a vida. Reinou o silêncio total até o fim da viagem.
QUANDO A TECNOLOGIA ATRAPALHA
Soou o terceiro e último sinal. No alto falante do teatro os recados de sempre sobre saída de emergência em caso de incêndio, programação do mês e desligar sinais sonoros. A platéia fez um silêncio sepulcral. As cortinas se abrem. O palco está à meia luz. No centro uma atriz ajoelhada, corpo um pouco curvado para a frente, cabelos logos caídos sobre o rosto cabixbaixo. Ela começa movimentar os braços para cima e lentamente levanta a cabeça. Toca na platéia estridentemente a campaínha de um celular. A atriz para o início da encenação e diz: DESLIGUE O CELULAR.
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